Attilio Hartmann*.-  Por ocasião das celebrações dos 35 anos de morte de Dom Romero, o Vaticano anunciou para o próximo dia 23 de maio a beatificação do arcebispo de San Salvador. A cerimônia será realizada em El Salvador, país ao qual Dom Romero dedicou toda a sua vida. A celebração será presidida pelo cardeal italiano Angelo Amato, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Em nota, a arquidiocese de San Salvador, expressa sua alegria pela beatificação. Diz: ”Hoje, é tempo de alegria e de festa. É uma imensa alegria para a nossa Igreja salvadorenha saber que estamos às portas da beatificação do bispo que quis permanecer com seu povo, como bom pastor. A beatificação é um dom extraordinário para toda a Igreja, mas, de um modo especial, para todo o povo salvadorenho. Monsenhor Romero, a partir do céu, se converteu no pastor bom e santo que une todo o povo de El Salvador”.

Romero foi o quarto arcebispo de San Salvador, em El Salvador, América Central. Célebre por sua pregação em defesa dos direitos humanos, ele foi abatido com um tiro de fuzil, disparado por um soldado do Exército de El Salvador, no momento da elevação do cálice, durante a Eucaristia, no dia 24 de março de 1980. Tinha 62 anos. Até hoje, ninguém foi preso pelo crime. Romero pode ser considerado um mártir dos direitos humanos e da opção preferencial pelos pobres. Num sermão, ele disse, claramente: “A missão da igreja é identificar-se com os pobres, assim ela encontra sua salvação”. A causa de sua canonização foi aberta por seu sucessor, Arturo de Rivera e Damas. Na América Latina, muitos se referem a ele como São Romero da América. Fora da igreja católica, Romero é honrado por várias denominações cristãs. A igreja anglicana o incluiu oficialmente entre seus santos. Romero é o único dos dez mártires do Século XX, representados na Abadia de Westminster, em Londres. Ele, Romero, foi candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 1978.

À época, El Salvador vivia um contexto de violenta guerra civil. Romero suportou muitas incompreensões, também dentro da Igreja. Sua voz, suas reivindicações e denúncias não quiseram ser escutadas no Vaticano. Houve correntes ideológicas e má informação sobre o que ocorria em El Salvador. O simplismo conceitual e político reduziu tudo à polarização Leste-Oeste, entre o capitalismo e o comunismo, baseado na Doutrina da Segurança Nacional imperante.

Em algum ponto da Praça de São Pedro, em Roma, caíram as lágrimas amargas de Óscar Romero, que saía abalado da audiência do dia 11 de maio de 1979, na qual ele tinha inutilmente tentado explicar a João Paulo II o que estava acontecendo com o seu povo e que tinha acontecido com ele, em um percurso dramático de conversão, selada pelo funeral dos seus pobres e dos seus padres.

Naqueles anos, quem defendesse os direitos humanos e pregasse a opção pelos pobres era taxado de marxista e denunciado como comunista. Romero não era marxista, era somente cristão, um seguidor coerente do Evangelho de Jesus. Homem de profunda fé, como poderia ficar indiferente quando cerca de 75 mil pessoas foram mortas durante a guerra civil de El Salvador, que começou em 1980 e terminou em 1992, com um acordo de paz mediado pelas Nações Unidas. Em 2010, o então presidente de El Salvador, Mauricio Funes, o primeiro líder de esquerda a ser eleito desde o fim da guerra civil, emitiu um pedido de desculpas oficial pela morte do arcebispo. Ao descerrar um painel em homenagem a Romero no aeroporto internacional de El Salvador, ele disse, textualmente: “Estou buscando um perdão em nome do Estado. Dom Romero foi uma vítima dos esquadrões da morte de direita que, infelizmente, agiram sob a proteção, colaboração ou participação de agentes estatais”.

Numa viagem ao exterior, perguntado por um jornalista sobre como estava o processo de canonização de Óscar Romero, o papa Francisco respondeu: ”O processo estava na Congregação para a Doutrina da fé, bloqueado “por prudência”, como se dizia. Agora está desbloqueado. Passou para a Congregação para os Santos. Eu gostaria que isto se esclareça logo: quando há o martírio por odium fidei… pelo ódio à fé, seja por confessar o Credo, seja por fazer as obras que Jesus nos manda fazer com o próximo. Para mim Romero é um homem de Deus”.

O Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, também se pronunciou no caso Romero. Textualmente, Esquivel disse: “Milhares de irmãos e irmãs, vítimas da violência, foram esquecidos. Romero tentou que o Vaticano o escutasse e ajudasse, mas voltou angustiado ao seu país, com dor na alma. Agora, o Papa Francisco busca, com justiça, reparar o esquecimento do mártir e restabelecer a mensagem de Romero para os fiéis de todo o mundo”.

Estamos vivendo um outro momento na igreja. No caso do Brasil, Helder Câmara, Luciano Mendes de Almeida, Aloisio e Ivo Lorscheiter, Tomás Balduíno, Chico Mendes, Margarida Maria Alves, Dorothy Stang e tantos e tantas, mártires ou não, que lutaram pela justiça social a partir de uma real e encarnada opção pelos pobres e injustiçados, estão tendo sua santidade reconhecida publicamente pela igreja. A igreja dos santos e mártires sempre existiu; mas nem sempre tiveram sua santidade reconhecida.

Óscar Arnulfo Romero, que tua luta por uma América Latina justa, solidária, democrática e profética encontre em outros corações a disposição para a continuidade desta luta. Com tua bênção, Beato Óscar Romero.

 * Sacerdote Jesuita, comunicador y docente universitario; director de la Librería Reus
Artículo publicado en el micrositio Punto de Encuentro de SIGNIS ALC, el 21 de mayo de 2015