Karla Maria*-SIGNIS Brasil

Brasil.- O alerta foi dado no dia 5 de outubro por intelectuais, artistas, economistas, advogados, jornalistas e sociólogos no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, na capital paulista, durante o lançamento do Projeto Brasil Nação, um manifesto em defesa de eleição direta e irrestrita em 2018.

Ex-ministros de diferentes governos do período democrático brasileiro também participaram do ato, como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Celso Amorim, ministros da Administração e Reforma do Estado e Ciência e Tecnologia no governo de Fernando Henrique Cardoso e da Defesa e Relações Exteriores, nos governos de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, respectivamente.

O historiador Luiz Felipe de Alencastro também esteve presente. O manifesto alerta: "A democracia brasileira está em perigo. Para completar o golpe parlamentar, os atuais detentores do poder discutem a ideia de costurar um remendo parlamentarista ou adiar a eleição presidencial de 2018. Há tentativas de impedir a plena representação das camadas populares. Tudo isso é inaceitável", diz o manifesto.

Segundo os autores, esse é um movimento político que quer devolver ao Brasil a ideia de nação. ”Hoje, ao invés de uma nação coesa buscando a democracia e a justiça social, como éramos nos anos 1980, somos uma sociedade dividida, na qual um governo nascido de um golpe parlamentar tenta impor ao povo brasileiro uma política liberal radical”, aponta o manifesto.

Os autores referem-se ao governo de Michel Temer, que assumiu a presidência da República após uma orquestrada derrubada da então presidente Dilma Rousseff por meio de um impeachment, justificado por “pedaladas fiscais” durante seu mandato. Irônico ou não, o atual presidente do Brasil responde à segunda leva de denúncias por corrupção e “dialoga” com o Congresso Nacional para se manter no poder e ter as denúncias arquivadas.

Alternativas – O Projeto Nação Brasil, lembra Bresser-Pereira, manifesta o desejo de que o país volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental.

O projeto destaca que a economia do país vem crescendo menos de 1% ao ano, cenário este agravado pela descoberta de um amplo esquema de corrupção envolvendo empresas, políticos, lobistas e funcionários de empresas estatais. “Embora a corrupção envolvesse políticos de todos os partidos, ela abriu espaço para um liberalismo radical moralista, de direita, como havia sido visto antes. Uma verdadeira luta de classes de cima para baixo. Dada esse diagnóstico geral, realizamos uma série de reuniões para redigir o manifesto que agora estamos tornando público”, afirmam os autores no texto/manifesto.

Mais do que criticar, o documento aponta saídas. São cinco pontos econômicos do projeto. “Enfim, precisávamos de um programa que fosse uma clara alternativa ao populismo cambial combinado com desrespeito aos direitos sociais”, apontam.

E são eles: regra fiscal que não seja mera tentativa de reduzir o tamanho do Estado à força, como é a atual regra; taxa de juros mais baixa, semelhante à de países de igual nível de desenvolvimento; superávit em conta-corrente necessário para que a taxa de câmbio assegure competitividade para as empresas industriais eficientes; retomada do investimento público; e reforma tributária que torne os impostos progressivos.

O Projeto Brasil Nação angaria apoios pela internet. O primeiro documento, focado nestes cinco pontos econômicos como alternativas à crise, já atingiu 11 mil assinaturas e o ex-ministro Bresser-Pereira espera alcançar ainda mais apoio. “Conversarmos com os partidos políticos e movimentos sociais que estiverem interessados em esclarecer e aprofundar as questões e as políticas que estão no manifesto”, afirma, ressaltando que o movimento Projeto Brasil Nação não é partidário nem pretende ter resposta para todas as questões.

“É um movimento de cidadãos que quer mostrar que existe uma alternativa para o Brasil, uma alternativa que poderá unir trabalhadores, empresários e classe média em torno das ideias de nação, desenvolvimento econômico, diminuição das desigualdades e proteção do ambiente”, afirma o Bresser-Pereira em sua página no Facebook.

Desigualdade, a chaga do país - No Brasil, os seis maiores bilionários têm a mesma riqueza e patrimônio que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Caso o ritmo de inclusão no mercado de trabalho prossiga da forma como foi nos últimos 20 anos, as mulheres só terão os mesmos salários dos homens no ano de 2047, e apenas em 2086 haverá equiparação entre a renda média de negros e brancos.

De acordo com projeções do Banco Mundial, o país terá, até o fim de 2017, 3,6 milhões a mais de pobres. Essas são as constatações do relatório A Distância Que Nos Une, Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, divulgado em setembro pela Oxfam Brasil, uma organização que trabalha no combate à pobreza e à desigualdade e que resolveu publicar pela primeira vez um estudo em que investiga, com base em vários dados, as raízes e soluções para um país onde se distribui de forma desigual fatores como renda, riqueza e serviços essenciais.

Eleições 2018 – Durante o lançamento do manifesto, o ex-ministro Celso Amorim citou as eleições de 2018 como um momento de esperança para reverter o golpe: “A eleição presidencial é a oportunidade para o povo se manifestar, escolhendo o líder que encarna as suas ideias, seus programas e em quem ele tem confiança”.

*Karla Maria é jornalista brasileira, autora do livro Mulheres Extraordinárias, Paulus Editora e duas vezes premiada com o troféu Dom Helder Câmara de Imprensa da CNBB.