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27 diciembre 2021

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Paulo Freire e a pesquisa em comunicação na América Latina

Paulo Freire e a pesquisa em comunicação na América Latina

Denise Cogo *

 

Os princípios da educação dialógica e libertadora de Paulo Freire orientaram experiências de comunicação alternativa e popular vinculadas a movimentos sociais que se desenvolveram entre os anos 70 e 90 na América Latina. As ideias de Freire integraram os programas de cursos e atividades de formação política e pedagógica desses movimentos, dos quais também participaram professores e estudantes que realizavam atividades de ensino, pesquisa e extensão nas universidades e que, em alguns casos, atuavam também como militantes nesses movimentos.

 

No contexto acadêmico brasileiro, obras de autoria de Paulo Freire, como Extensão e Comunicação, Pedagogia do Oprimido e Educação como Prática da Liberdade, passaram a integrar os programas das disciplinas de comunicação rural dos cursos de Comunicação Social, que, de modo dominante, se orientavam por concepções teóricas difusionistas, assim como foram incorporadas também aos conteúdos programáticos das disciplinas de comunicação alternativa e popular. Das 33 terminologias identificadas pela pesquisadora Regina Festa (1984) para nomear e definir a comunicação alternativa no Brasil a partir dos meios utilizados, dos conteúdos, funções e níveis de participação, algumas delas, como a comunicação libertadora, a comunicação do oprimido e a comunicação dialógica, evidenciavam diretamente a influência freireana nesse âmbito da pesquisa em comunicação.

 

Presente, inicialmente, na extensão e no ensino universitários, o pensamento de Paulo Freire se estendeu também à pesquisa acadêmica, especialmente a partir da criação de cursos de mestrado e doutorado em Comunicação em diferentes países da América Latina. A institucionalização da pesquisa nos cursos de Comunicação permitiu que,  além da comunicação popular, alternativa e cidadã e a comunicação-educação[1], também os estudos culturais e de recepção latino-americanos acolhessem perspectivas epistemológicas e teóricas constitutivas da obra de Freire, na perspectiva, inclusive, de pensar a comunicação para além das habilitações como Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas.

 

As ideias de Paulo Freire inspiraram o pensamento de teóricos como Juan Díaz Bordenave (1984) e Mario Kaplún (2002), cujas concepções foram essenciais para a pesquisa latino-americana em comunicação alternativa e popular, especialmente a partir das experiências desses autores com projetos de comunicação rural. As reflexões e princípios sobre a dimensão horizontal e dialógica da comunicação, formuladas por Bordenave e Kaplún, orientaram a compreensão das práticas de comunicação popular que se desenvolveram no espaço latino-americano como perspectiva alternativa à comunicação de massa. Assumida pelos dois autores, o princípio da dialogia de Paulo Freire, em contraponto a um modelo de educação bancária, conduziram ao questionamento de um modelo de comunicação massiva verticalizado, que privilegiava a dissociação entre os polos da emissão e recepção e favorecia a produção de assimetrias e desigualdades na apropriação e distribuição dos recursos comunicacionais. As críticas dirigidas a esse modelo apontavam para a existência limitada de espaços para a participação dos receptores (ouvintes, leitores, telespectadores) em estruturas e instâncias das políticas e práticas comunicacionais e midiáticas em diferentes espaços latino-americanos. A América Latina, cabe ainda lembrar, foi alvo, nesse período, de um conjunto de políticas desenvolvimentistas que pautaram a implementação de projetos em contextos agrários e urbanos, em diferentes países do continente. Pesquisadores da comunicação passaram a chamar a atenção para a reprodução de quadros de dependência e desigualdade social gerados pela concepção difusionista de comunicação que orientava esses projetos.

 

Na interface comunicação-educação, Kaplún propôs a distinção de três modelos de educação para a compreensão das práticas de comunicação nos movimentos sociais: um que colocava ênfase nos conteúdos, um que acentuava os efeitos, e outro que enfatizava o processo. Embora os três modelos pudessem aparecer imbricados em práticas comunicacionais concretas, o autor vislumbrava no modelo de educação que privilegia o processo aquele que favorecia a participação em experiências de comunicação popular. Em consonância com o dialogismo de Paulo Freire, Mario Kaplún identificava no modelo que põe ênfase no processo a oportunidade dos receptores não apenas responderem ou reagirem, mas também gerarem as suas próprias mensagens. Assim, para o autor, a verdadeira comunicação não estava dada por um emissor que fala e um receptor que escuta, mas por dois ou mais seres ou comunidades que intercambiam e compartilham experiências, conhecimentos, sentimentos, mesmo que seja à distância e através de meios artificiais. “Através desse processo de intercâmbio, os seres humanos estabelecem relações entre si e passam da existência individual isolada à existência social comunitária” (KAPLÚN, 2002. p. 58). Sob essa mesma perspectiva, Bordenave se alinhava à concepção de Paulo Freire para defender que “a comunicação é uma das formas pelas quais os homens se relacionam entre si. É a forma de interação humana realizada através do uso de signos” (BORDENAVE, 1984, p. 12).

 

A defesa da dialogia, da horizontalidade e da participação, como princípios orientadores das práticas de comunicação popular e alternativa, vão contribuir igualmente para um questionamento do paradigma informacional, dominante em diferentes áreas da pesquisa em comunicação na América Latina. Entendido como transmissão de informação, em uma dinâmica linear pautada por uma divisão fixa de papeis entre emissor e receptor, o paradigma informacional, conforme nos lembra Vera França (2016), negligencia o agenciamento humano, a natureza simbólica da linguagem e a ação reflexiva que constitui o processo comunicacional.

 

Não apenas os pesquisadores da comunicação popular e da comunicação e educação, mas igualmente aqueles que, a partir dos anos 90, se filiaram aos estudos culturais e de recepção latino-americanos, passaram a se posicionar na interface comunicação e cultura, legada pelo pensamento freireano, para indagar sobre os limites de pensar a comunicação como processo de transmissão ou troca de informações. Esses pesquisadores buscaram se posicionar em um paradigma relacional ao olharem para a comunicação e para a comunicação midiática como dinâmicas de interação, em que sujeitos interlocutores, inseridos em uma situação social, produzem sentidos e estabelecem relações através da linguagem.  A presença de uma visão freireana no paradigma relacional pode ser identificada no entendimento da comunicação a partir das três dimensões levantadas por França (2016): a comunicação como práxis humana, como produção de experiência, e como uma ação com o outro, entendida como um processo de interação marcado pela reflexividade.

 

No campo dos estudos culturais e de recepção latino-americanos, a desconstrução da premissa da passividade do consumidor/receptor da comunicação dá lugar à preocupação com a “natureza produtiva do consumo” da recepção como ativa e como instância de interpretação, de ressignificação e de “usos” das mídias. Do mesmo modo, a produção é vista em seu caráter relacional, e o produtor entendido como um sujeito que não é autônomo, mas ocupa posições em uma dinâmica de interações, tanto em nível interpessoal como no âmbito dos sistemas midiáticos.  O paradigma relacional colabora ainda para o fortalecimento do caráter político da produção do conhecimento em comunicação, ao posicionar as instâncias da produção e do consumo/recepção como campos que se constituem como espaços de poder, disputas e lutas por hegemonia.

 

Ao defenderem o deslocamento da dicotomia sujeito-objeto e a instauração de dinâmicas horizontais e participativas nas práticas comunicacionais e midiáticas, a pesquisa em comunicação precisaria enfrentar também a existência dessa dicotomia na atividade da pesquisa. Ou seja, também a prática da pesquisa científica não poderia se traduzir em uns pesquisadores (sujeitos) que produziam ativamente um conhecimento enquanto outros indivíduos e grupos (objetos) seriam considerados dados passivos a serem estudados, ou ainda, como receptores, em última instância, de um conhecimento elaborado por outros acerca de sua prática (MATA, 1981).

 

Assim, investigar o processo ou o agenciamento dos produtores e receptores/consumidores na comunicação popular, assim como nos estudos culturais e de recepção, conduziu pesquisadores da comunicação a assumirem, na perspectiva freireana, a atividade da pesquisa como uma construção de relações entre os seres humanos e o mundo. Ao invés da imposição ou transmissão, essas relações se fundam na criação de conhecimentos em conjunto, e que exige, conforme a síntese de Paulo Freire “a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura e a fala do outro” (FREIRE, 2018, p. 17).

 

Não por acaso nestes três âmbitos de pesquisa – os da comunicação popular, da comunicação e educação, e dos estudos culturais e de recepção -, os pesquisadores passaram a privilegiar os métodos qualitativos e as técnicas de investigação que permitiam esse encontro, como os relatos orais  (a entrevista e as histórias de vida, etc.), e, ainda, as modalidades da chamada ciência participativa, como a pesquisa ação, a pesquisa participante, a pesquisa intervenção e a pesquisa militante[2].  Para além do “conhecer para explicar”, as modalidades de ciência participativa buscavam “compreender para servir”, conforme sintetizava Brandão em uma de suas obras sobre pesquisa participante: “Quando o outro se transforma em uma convivência, a relação obriga a que o pesquisador participe de sua vida, de sua cultura. Quando o outro se transforma em um compromisso, a relação obriga a que o pesquisador participante participe de sua história” (BRANDÃO, 1984, p.8).

 

Nessa articulação entre conhecimento científico, política e sociedade, encontramos Paulo Freire materializado em posicionamentos de intelectuais latino-americanos dos estudos culturais e de recepção, como Jesus Martín-Barbero, quando defende a necessidade de que a América Latina produza conhecimento teórico autônomo, derivado da compreensão de sua própria realidade e das especificidades históricas que constituem as dinâmicas de sua vida social. Assim como Freire acreditava que a educação deveria unir vivência e conhecimento, Martín-Barbero enxerga na noção de cotidiano esse lugar da produção de um conhecimento científico situado, que encontra o social e o político dinamizados em micro contextos da vida social latino-americana (como o do bairro, da casa, da rua, etc.) e não unicamente no macro universo formal das instituições.  Ao invés de espaço de reprodução de ações e comportamentos, o cotidiano se torna espaço de produção, interação, negociações, conflitos e resistências, em que é possível capturar as apropriações sociais diversas e nem sempre previsíveis das mídias, bem como as reconfigurações de saberes, percepções, sensibilidades, linguagens, sociabilidades e modos de intervenção na realidade que derivam dessas apropriações.

 

Em sintonia com o que reivindicava Freire para o campo da educação, Martín-Barbero defende a abertura do trabalho acadêmico da comunicação para novos modos de relação com a “vida real”. Para o autor, não é a distância indispensável requerida pela produção de conhecimentos que torna irreal, especulativo e estéril o trabalho acadêmico, mas sim a irrelevância social dos problemas abordados e o formalismo das soluções tanto teóricas como práticas alcançadas pelos pesquisadores. O autor entende, assim que a experimentação social pode se constituir em estratégia de encontro da universidade com a realidade da comunicação nacional, regional e local, na perspectiva de permitir a articulação da docência e da pesquisa com projetos de formulação de demandas sociais e de desenho de alternativas em nível coletivo. Nessa articulação, desempenham papel decisivo, conforme nos provoca Martín-Barbero, “os modos de relacionamento do trabalho acadêmico com os modelos hegemônicos ou contra-hegemônicos de comunicação, os quais podem ser de dependência, apropriação e invenção” (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.239).

 

Referências:

BORDENAVE, Juan Díaz. Além dos meios e das mensagens. 2ª ed., Petrópolis Vozes, 1984.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1984.

COGO, Denise. Da comunicação rural aos estudos de audiência: influências da obra de Paulo Freire no ensino e na pesquisa em comunicação social. Rastros – Revista do Núcleo de Estudos em Comunicação, Joinville, v. 1, n.1, p. 29-36, 1999.

COGO, Denise. Repensando a Ciência Participativa na Pesquisa em Comunicação. In: Raquel Paiva. (Org.). O retorno da comunidade – os novos caminhos do social. 1ed.Rio de Janeiro: Mauad, 2007, v. 1, p. 149-166.

FESTA, Regina.; Silva, Carlos Eduardo (orgs). Comunicação popular e alternativa no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1986.

FRANÇA, Vera Veiga. O Objeto e a Pesquisa em Comunicação: uma abordagem relacional. In: MOURA, Claudia Peixoto de, LOPES, Maria Immacolata Vassallo (Orgs.)  de Pesquisa em comunicação: metodologias e práticas acadêmicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016. P. 153-154

FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

FREIRE, Paulo. Extensão e Comunicação. 8ª; ed. Paz e Terra, 1983.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz & Terra, 2018;

KAPLÚN, Mario. Una pedagogia de la comunicación – el comunicador popular. La Habana: Editorial Caminos, 2002

LIMA, Venício de Artur. Comunicação e cultura: as idéias de Paulo Freire. 2ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

MARTÍN- BARBERO, Jesus. Ofício de cartógrafo – Travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo, Loyola, 2004.

MATA, Maria Cristina. Investigar lo alternativo. Chasqui – Revista Latinoamericana de Comunicación. Quito, nº 1, 1981, p. 72-74.

SILVA, Carlos Eduardo Lins da. Muito além do Jardim Botânico – um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores. São Paulo: Summus, 1985.

THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-Ação. São Paulo: Cortez, 1988.

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* Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e Pesquisadora Produtividade 1C do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Brasil. E-mail: Denise.cogo@espm.br

[1] Também conhecida, em diferentes contextos latino-americanos, como educomunicação, recepção ativa e leitura crítica da comunicação, dentre outros.

[2] A pesquisa-ação sobre rádios comunitárias de Maria Cristina Mata e a pesquisa-ação aplicada a um estudo de recepção crítica do Jornal Nacional da Rede Globo entre trabalhadores, de Carlos Eduardo Lins e Silva, são dois, dentre os muitos exemplos, do emprego desse método na pesquisa em comunicação latino-americana.

 

Artigo publicado na revista digital Punto de Encuentro, da SIGNIS ALC, dezembro de 2021. Disponível aqui.

 

A ilustração que acompanha este artigo faz parte de uma coleção de cartuns e desenhos criados especialmente por artistas gráficos independentes e membros do GRAFAR / RS para comemorar os 100 anos do educador Paulo Freire, em 19 de setembro de 2021. Entre os artistas que produziram e doaram suas artes são Alisson Affonso, Aline Daka, Amaro Abreu, Bier, Edgar Vasques, Fabiane, Latuff. Leandro Bierhals, Natalia Forcat, Santiago, Schröder e Vecente. A produção é de Cris Pozzobon. Mais informações e compras: freireandopoa@gmail.com / cafecompaulofreire@gmail.com

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